Voto no Capital


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Se tem uma coisa que respeito é voto. Hoje muito mais, pela desconfiança de que tenha jogado um dos meus no lixo, recentemente. Mas não importa, continuo venerando as urnas e vou além, correndo um risco que já me custou caro: faço campanha. Espontânea, que fique bem claro.

Meu próximo voto, consciente e empolgado, é para oâ CAPITAL INICIAL. No Prêmio Multishow (16 de maio). Fecho com eles na categoria de “Melhor Show”.

É uma temeridade, reconheço. De rock entendo patavinas, como se dizia em meu tempo, ligeiramente posterior ao da Mary Montilla e da Guida Guevara. Sou daqueles que ouvem, gostam e ponto. Além do mais, dentre os cinco indicados, Charlie Brown Jr, Ivete Sangalo, Los Hermanos, Jota Quest e Capital, só assisti os dois últimos - no Jota Quest não levo fé, depois falo o porquê. É, portanto, um voto escancaradamente sentimental, mas não apenas saudosista. Explico.

Quando fui morar em Brasília (1984), em plena idade do desbunde, 16 anos, o punk rock era objeto de adoração quase fanática por grande parte de meus colegas da UnB. Influenciados pelo pioneiro Aborto Elétrico, então já desfeito, Legião Urbana, Plebe Rude, Paralamas do Sucesso e Capital Inicial dominavam a cena. Se dependesse dos brasilienses, Renato Russo, Herbert Vianna, Philippe Seabra e Dinho Ouro Preto teriam seus rostos esculpidos na Colina da Universidade, igualzinho aos presidentes americanos no Mount Rushmore. E tome contestação!

Capital

Capa do CD Capital Inicial - Aborto Elétrico (Reprodução)

Mas eu era menino do interior, bem-comportado, e dessa erupção vulcânica acabei sendo apenas um contido voyeur, do tipo cheio de vontade, mas sem um pingo de coragem para barbarizar. Sequer ia aos shows, com medo de quebra-quebra. Imagina, quase como estar em Roma e esnobar o papa. Ô remorso! A exceção foi o Paralamas, que sempre assistia quando se apresentava na cidade. Os outros, só na vitrola e pela TV.

Eis que só agora em março, mais de duas décadas depois de sua criação, fui ver de perto o Capital Inicial, no Canecão. Um choque. Impossível não recorrer ao bordão da langerie: “o primeiro show deles a gente nunca esquece”! Não apenas por terem resgatado pérolas do Aborto Elétrico (”Fátima”, “Veraneio Vascaína”, “Música Urbana”, “Que país é esse”, “Geração Coca-cola”), cujas letras-porretadas me fizeram viajar de volta quela efervescente Brasília musical que conheci, mas também com seus próprios clássicos, não menos arrebatadores, como “Independência”, “Fogo” e “O Passageiro”. Sem falar no vigor altura que conferem ao repertório pop, nascido do feliz reencontro de 1998.

Um show arrasa-quarteirão. Superprodução, com projeções sobre as músicas, bonecos infláveis gigantes, luz de primeira e passarela avançando pelas entranhas da platéia, deixando tietes e simpatizantes em êxtase. Dinho Ouro Preto totalmente vontade no figurino “astro do rock”: voz segura, fôlego de tubarão, performance explosiva. Apesar de abusar do cacoete adolescente de substituir as vírgulas pelos irritantes “cara”, provou que continua expert na língua que todo mundo entende: vibração. Idem, idem o Fê Lemos, em plena forma, implodindo a batera. Depois de quase duas horas, a gente sai do show igual Natasha: “O mundo se acabando/ E ela só quer dançar, dançar, dançarâ”

Sinto-me, de certa forma, vingado de mim mesmo. Muito do que só ouvi nos 80âs, acabo de me lambuzar. Não chega a ser uma redenção, mas a alma está enxaguada.

No meio do show, o Dinho pregou o voto nulo nas eleições de outubro. Foi ovacionado pelo público, jovens na maioria. Bom, faça o que bem entender com seus votos, mas, acredite em mim: ao menos na votação do Multishow (www.multishow.com.br), crave no Capital Inicial. Mais que isso: se eles passarem por perto, mergulhe sem timidez!

*

Quanto ao novo show do Jota Quest, que assisti dias depois do Capital, também no Rio, fiquei decepcionado. O nome: “Até onde vai”. Saí sem a resposta.

A cenografia era surpreendente, hi-tech, com um alucinante painel computadorizado de luzes dominando totalmente o palco gigantesco do Claro Hall. Desse duelo, a banda já sai perdendo. E se você abstraísse daquela onda pula-pula deles e do público - que, reconheço, não deixa de ser interessante enquanto ritual pop - sobrava muito pouco de música. O guitarrista-galã Marco Túlio manda bem e o Rogério Flausino é carismático, mas, como bem lembrou um amigo que entende do riscado, é especialista em animar auditório; voz que é bom, necas. Senti como se estivesse na platéia do Faustão. Se não cantasse ninguém ia estranhar. O final, quando ataca de “Codinome Beija-Flor” acompanhado só pelo teclado, é desolador. Acaba salvo pelo público, que se encarrega do coro.

Como show algum se sustenta apenas em efeitos especiais e dança de isqueiros, fiquei com a sensação de que, ao contrário do Capital, o Jota Quest é para se ouvir no rádio mesmo.


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