A revolta do peru


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A noite de NATAL sempre prometia no casarão. A parentada chegava em levas. Os da casa, principalmente as filhas descasadas, costumavam vir mais cedo para secar a famosa adega do doutor - homem de careca reluzente, bigode farto, cara de poucos amigos, que não escondia a irritação com aquilo que classificava de invasão bárbara.

Nada indignava mais o doutor Ernesto que a tropa de agregados, cujo crescimento chegou a tal ponto que a solução foi promover um amigo oculto. “Prática insuportável”, não cansava de repetir. Até as paredes do casarão já sabiam decor e salteado a descrição que cada um faria ao revelar o nome sorteado. Se fosse adolescente: “Precisa tomar juízo”. Para o pai: “O maior mala”. Da mãe: “A coroa estressa a gente”. O irmão: “Véio, não vejo a hora de você sair de casa”. A prima de piercing e silicone: “Irado”. Se viesse do interior, então, não perdoavam: “Vai ganhar um lampião novo”… E dá-lhe xaropada.

Tudo corria normalmente. Homens na sinuca; tias e primas ajudando dona Corina na arrumação das mesas; netas brincando de esconde-esconde com os namorados no jardim; criançada correndo feito cabrito…

De repente, um grito de pavor atravessou a casa, sacudindo até os penduricalhos da árvore:

- Sinhá, sinhá! Acode! Acode!!!

Todos correram para o quintal e encontraram Benedita em estado de choque. Facão em punho, a cozinheira apontava para o vazio.

O doutor abriu caminho entre as mulheres - algumas já subindo em cadeiras com medo de rato - e logo entendeu a tragédia:

- Chamem a polícia, roubaram o peru! - ordenou.

Antes de desfalecer, a cozinheira só teve forças para emendar:

- Não, patrão. Ele fugiu! Só deixou uma carta.

A fuga do peru macho holandês, que há mais de um ano vinha sendo engordado para a ceia, era até compreensível. Afinal, instinto de sobrevivência é o que não falta a um bichano daqueles. Mas uma carta de despedidas…

O doutor abriu o envelope - peru importado, letrado e fino - colocou os óculos, limpou a garganta e impostou a voz como fazia quando ainda era juiz e anunciava as sentenças de forma implacável:

“Prezada família,

Agradeço a atenção que tiveram comigo, mas acho, sinceramente, que mereço um fim mais digno.

Sei que para muitos de minha espécie é uma honra cumprir seu destino, oferecendo-se em sacrifício para uma ocasião tão especial. Mas, sinto muito, tô fora!

Que fique bem claro: não era minha intenção estragar festa alguma. Até porque, jamais imaginei ver a família reunida depois dos tantos barracos que presenciei.

Achei que continuaria tranqüilamente desfrutando da hospedagem e participando da maior diversão da rua: apostar com o papagaio da vizinha qual seria a próxima pancadaria dentro da casa.

Mas, eis que fui surpreendido por essa súbita trégua entre vocês para distribuição de presentes… tendo justamente a mim como prato principal!?!

Lembrei-me das cenas horripilantes que vi pela janela no último Natal. Tia Veridiana criticando o tempero. Genros reclamando do sogro muquirana por ter servido frangão em vez de lagosta. Os sobrinhos se lambuzando com aquela farofa seca. As mulheres falando mal dos maridos e dos filhos…

Não, definitivamente, não foi isso que sonhei para aquela que deveria ser a minha primeira e única Noite Feliz.

Desculpem o transtorno, mas prefiro fazer como seus netos: seguir logo pra balada.

Desejo a todos um Feliz Natal e um Ano Novo de muita paz.

Ao menos tentem!

Ah, já ia me esquecendo: estou levando o leitão junto. Peçam pizza.

Um abraço do peru!”

(Crônica publicada na revista Ímpar - dezembro/2006)


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