Moderna maturidade


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Além de crônicas, tenho escrito alguns artigos, que passarei a reproduzir aqui também. Esse aí abaixo foi publicado recentemente na revista ÍMPAR:

A Moderna Maturidade no Parque de Diversões

Eles finalmente chegaram ao paraíso - não, não o eterno; o daqui da Terra mesmo. E, se depender do marketing, para ficar.

Antes, os “maduros” eram vistos apenas como uma clientela com consumo restrito a itens de sobrevivência, como saúde, alimentação, moradia e transporte. Por isso mesmo, quanto mais os cabelos prateavam, menos interessavam ao carneiro de ouro dos tempos modernos, o mercado - monstro famigerado que nas últimas décadas preferiu se voltar com apetite incontrolável para os jovens e seus modismos.

Mas eis que, contrariando hábitos quase sagrados, esses “brotos” (naquela concepção do Houaiss de “pessoa fisicamente bem conservada”) resolveram apostar em investimentos no aqui-e-agora. Resultado: trocaram um estilo de vida quase marginal por uma passagem de primeira classe para a modernidade e, quem diria, passaram a se apresentar, em alto e bom som, como a mais nova tribo urbana a navegar nas águas da globalização.

Os norte-americanos, que adoram rotulações sociológicas e entendem de mercado como ninguém, os batizaram de Modern Maturity, também título da revista publicada pela Associação Americana de Aposentados. E a moderna - e poderosa - maturidade colocou seu bloco na rua, literalmente, ameaçando a hegemonia de tantas galeras já desbotadas (patricinhas & mauricinhos, yuppies, clubbers, plocs…), no ranking de consumo de bens e serviços. Nada como ter bala na agulha!

Ímpar - Maturidade (capa)Aqui em nossos verdejantes trópicos, o movimento teve início na década de 90. A psicóloga Elen Souza, coordenadora do Sênior - Curso de Extensão para a Melhor Idade, da UNAES, lembra-se de um comentário marcante que ouviu na primeira turma do curso, há três anos: “O confisco da poupança no Governo Collor levou ao infarto muitos de nossos amigos que guardavam dinheiro para a velhice e para deixar aos filhos”. Foi então que começaram a acordar para a vida e, bolsos cheios, foram s compras.

Obviamente, a essa altura do campeonato, uma cruzada contra padrões impostos em vida inteira não poderia ser comparada aos arroubos de rebeldia dos adolescentes, que tantas vezes se tornam reféns das artimanhas da publicidade. Contestação sim, mas com critério e autocrítica acentuados. A psicóloga aponta para uma intensificação de questionamentos: “Eles estão antenados, mas não são facilmente influenciáveis. Hoje, consomem mais, porém avaliam muito bem tudo que lhes é oferecido. Eu costumo brincar lembrando a eles que não precisam mais ter somente dois pares de sapatos, um para trabalhar e outro para rezar, como se dizia antigamente. Esse sentimento de culpa, por consumir em vez de só poupar, eles estão superando”.

Tem-se aí a primeira grande revolução pessoal que eles bancam - não apenas emocionalmente falando, mas também em termos econômicos. Cresce entre os “sêniors” a procura por aprimoramento em educação e instrução, ferramentas imprescindíveis nesta era da informação. As “faculdades da melhor idade” têm procurado suprir essas expectativas, oferecendo disciplinas que vão desde cidadania, políticas sociais e voluntariado, a idioma, moda, informática e comunicação, passando por psicologia aplicada maturidade e finanças.

Enfrentando muitas vezes a resistência dos maridos, as mulheres, historicamente reprimidas, se lançaram em busca de autoconhecimento e independência, ao menos de pensamento (”libertação”, como muitas delas fazem questão de frisar). Afinal, foi-se o tempo em que qualquer pessoa, jovem ou anciã, podia se dar ao luxo de imaginar que nada mais haveria a aprender. Ou mesmo tempo suficiente para evoluir.

Em diversas outras frentes, o chamado “poder grisalho” vai derrubando tabus e engordando o PIB, com demandas cada vez mais especializadas. Não são poucas as empresas que correm a despender bilhões de dólares para adaptar seus produtos s necessidades desses novos consumidores: montadoras de carros (assentos especiais), indústria alimentícia (embalagens mais legíveis), setor financeiro (clubes de investimentos). Algumas chegam a reinventar a roda, como a gigante japonesa Sony, criadora do PlayStation, febre entre a garotada, que aumentou o tamanho dos botões dos consoles de seus jogos eletrônicos para atender também aos vovôs. Bom, isso ainda não mudou: enquanto elas saem para se divertir, eles continuam preferindo um bom sofá e o controle remoto ao alcance das mãos.

As promessas de maior longevidade feitas pela ciência e a redescoberta da sexualidade, no embalo do efeito Viagra, inflamaram o interesse pela estética. As tradicionais cirurgias plásticas faciais e de lipoaspiração já perderam terreno para os ácidos e cosméticos de última geração que estão virando a cabeça até dos cavalheiros mais conservadores. Sem falar no silicone, que conquista cada vez mais adeptas, como Ivonete Teixeira, que acaba de implantar próteses. “Há 40 anos fui a um médico e pedi para ter peito e bumbum, porque sempre fui muito magra. Nesse tempo todo me dediquei família e só agora pude realizar esse sonho. Estou me sentindo bonita e jovem. Não importa por quanto tempo vou desfrutar dessa sensação; já vai ter valido pena. Acho que isso irá influenciar minhas amigas”, afirma ela, turbinada e feliz da vida.

Em se tratando de lazer e cultura, o que geralmente se restringia a atividades lights, como os bailes da terceira idade e bingos, agora também incorpora programas antes evitados por dificuldade de acesso ou mesmo desinteresse, como espetáculos, cinema, palestras, cursos e afins. Inclua-se aí uma vertente especial: a descoberta da vocação expressão artística. Se antes privilegiavam a relativa discrição dos trabalhos manuais, como tricô e pintura (para consumo familiar), agora avançam sobre os palcos em busca dos holofotes e platéias do teatro, da música, da dança e da literatura. Que Santa Cora Coralina abençoe!

Quanto s viagens, outrora restritas a breves visitas familiares ou raras excursões, hoje, segundo economistas, já representam 5% do orçamento da faixa etária superior aos 50 anos. E vêm se tornando mais constantes e longínquas, implicando em gastos maiores com vestuário específico e aprendizado de etiqueta, história e idiomas.

E quando se pensava que nada mais restava aos “coroas”, eles mandam avisar que já avançaram também sobre a última fronteira qual ainda tinham inabalável resistência: a informática. O instrutor Hamilton César Cintra Maria afirma que o número de usuários só faz aumentar: “Eles são muito interessados, exigentes e já conseguem dominar as principais ferramentas do computador. Os fabricantes também estão se adaptando a esses novos consumidores, oferecendo mouses mais lentos e teclados anatômicos”. Ana Dirce, uma de suas ex-alunas, acessa diariamente a internet desde 2002. “Leio os jornais online, entro nas salas de bate-papo e me comunico com familiares e amigos pelo msn. Não vivo mais sem o computador”, revela. Aliás, veio justamente dela uma reflexão que se tornou célebre entre as colegas de curso: “A mulher moderna não é aquela que anda bem vestida. Ela tem que dirigir carro, usar o computador e falar ao celular”.

Enfim, eles estão na moda! Exagero? De modo algum: todo esse panorama já está sendo cientificamente comprovado. O Programa de Estudos do Futuro, da USP, pesquisou o novo perfil do consumidor brasileiro e apontou o inevitável: a mulher e o idoso “ditarão novas regras para o mercado em 2010″.

Maduros, brotos, sêniors, grisalhos, coroas, experientes… não importa como sejam chamados. O fato é que chegou a hora dessa rapaziada mostrar seu valor. E provar ao mundo que a vida pode ser um parque de diversões com data de validade muito além do que sonha nossa vã e arcaica sabedoria.


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