Entre a paz e o sonho


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A revolução palestina vive e só viverá dela mesma“. Esse míssil, de precisão cirúrgica, foi lançado pelo escritor Jean Genet. Lembro-me dele todas as incontáveis vezes em que a temperatura se eleva entre israelenses e PALESTINOS, como estamos vendo nos últimos dias.

Genet escreveu sobre essa tragédia com conhecimento de causa muito maior do que qualquer analista internacional que fica sabendo das últimas pela CNN. Mergulhou fundo no conflito, no início da década de 70, e tirou poesia da dor que assola aquela terra: “…mais por passatempo que por convicção, havia aceitado o convite para passar alguns dias com os palestinos. Acabei permanecendo cerca de dois anos e, a cada noite, deitado, quase morto, enquanto esperava que o comprimido de Nembutal me fizesse dormir, eu mantinha os olhos abertos, o espírito claro, sem espanto nem medo, certamente feliz por estar aqui, onde, tanto de um lado quanto de outro do rio, homens e mulheres há muito tempo vigiavam. Por que seria diferente comigo?

Está em seu último livro, “Um Cativo Apaixonado” (Editora ARX), misto de autobiografia e reportagem de uma experiência ímpar. Lançado em 1985, merece ser lido e relido, por exalar uma atualidade a toda prova e nos conduzir, como muito bem alerta a apresentação, “ao epicentro da devastação de um território físico e humano”.

Para nós, aqui deste distante Ocidente, infelizmente, a questão tornou-se apenas um objeto de curiosidade jornalística. E de baixa audiência, diga-se de passagem, embora mereça da imprensa internacional cobertura cada vez mais competente - como a do repórter Marcos Losekann, na TV Globo, para dar um exemplo próximo.
Arafat 2.jpg

Como jornalista, eu tive o privilégio de observar de perto (o que tem impacto especial, pois a postura de um homem público revela muito de suas verdadeiras intenções), fotografar e ouvir o legendário Yasser Arafat. Foi em 1995, quando ele fez uma visita oficial a Brasília, pouco depois de se tornar presidente da Autoridade Palestina e receber o Prêmio Nobel da Paz.

Era um homem de estatura baixa, pouco mais de metro e meio, mas cuja figura, ampliada por aquele kaffiyeh impecavelmente dobrado na cabeça, emblemático como uma coroa, magicamente dominava toda a cena - muito mais do que já se percebia pela televisão. Exibia um sorriso tão cativante que quase nos fazia esquecer a fera em que se transformava para guerrear por seu povo. O olhar, afiado e penetrante como uma adaga, lhe garantia a primeira das conquistas, o respeito.

Em seu discurso no Palácio Itamaraty, Arafat usou a palavra “paz” - “salam”, em árabe - mais do que qualquer outro chefe de Estado que eu já tenha ouvido (e olha que fiquei quase expert em retórica diplomática, cobrindo o movimento internacional em Brasília para jornal e televisão durante muitos anos). Contudo, não parecia uma ode ao heroismo, ou, em outro extremo, uma súplica. O brado de Arafat soou-me mais como o eco de uma guerra personalista do que propriamente a manifestação sincera de um sonho.

Desde então fico assombrado com a sensação de que, de tão recorrente, esse torpor parece caminhar para o irrevogável. Porque, no fundo, os líderes palestinos e israelenses, mais do que perseguir a paz, se alimentam mesmo de vingança e vitória, garantindo, dessa forma, a triste sobrevivência de seus povos.

E por muito tempo ainda, senão toda uma eternidade, o resto do mundo, como Genet, poderá não mais que vigiar.

Salam.gif “Salam” (paz, em árabe)


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