No palco com Antônio Ermírio


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Acaba de estrear em São Paulo “Acorda Brasil”, de ANTÔNIO ERMÍRIO DE MORAES. É o terceiro texto dele para teatro e tem como mote a Educação. Os outros também abordavam questões sociais: “Brasil S/A”, sobre a perversidade da carga tributária, seguido de “S.O.S. Brasil”, falando da corrupção na saúde pública.

Segundo matéria da “Folha”, ele preferiu não dar entrevistas. Também não houve tempo para veiculação de críticas especializadas nem resposta do público, mas não deve demorar. Afinal, este novo espetáculo junta natureza do próprio autor dois grandes trunfos: uma estrela de alta voltagem, Arlete Salles, e um diretor consagrado, José Possi Neto.

Dessa forma, aqui fico eu com a curiosidade em ebulição. Adoraria saber dele mesmo como tem evoluído seu trabalho - ou hobby - nessa área. Em 1999, quando foi a Brasília para a estréia da primeira peça, fiz uma longa uma longa entrevista exclusiva com ele, exibida pela TV Brasília. Um privilégio entrevistar alguém que fala o que verdadeiramente sente e pensa; coisa rara.

Enquanto notícias não chegam, aproveitei para rever a gravação. Pincei alguns trechos e transcrevo a seguir, para quem quiser saber um pouco mais sobre esse surpreendente (em todos os sentidos) operário bissexto da dramaturgia:

AntÃnio Ermirio 1.jpgR.M. - O senhor vai mudar de profissão?
A. E. - [Risos] Isso é uma aventura, não sou dramaturgo. Acontece que fui candidato ao Governo de São Paulo, em 86, e vi tantas coisas erradas, meu Deus. Eu fazia conferências, palestras e nada mudava. Cheguei conclusão de que as pessoas não pensam naquilo que você fala. Então pensei: talvez se eu fizesse uma peça elas entenderiam mais. Passei a andar com um caderninho no bolso e anotar idéias para depois desenvolvê-las. Foi isso.

R.M. - O senhor respira economia, finanças, e é disso que sua peça trata. Acha que conseguiria escrever sobre algo diferente, um romance, por exemplo?
A.E. - Não… Comecei muito velho esse negócio de ser dramaturgo. Escrevo sobre aquilo que conheço bem. Minha próxima peça chama-se “S.O.S. Brasil” e fala da saúde pública Depois vou escrever outra, sobre Educação, que também já tem nome, “Acorda Brasil”. Com essa trilogia acho que cumpri minha missão.

R. M. - Não dá para esquecer o fato de que o senhor é um homem muito rico. Isso não desfoca sua visão sobre a carência das pessoas?
A.E. - A riqueza tem que ser interna. Eu tenho mais de 34 mil funcionários e conheço muito bem as necessidades deste país, que já percorri inteiro. Uma vez fiz uma viagem de 50 dias pelo sertão nordestino e o nosso motorista parava o carro quando via uma ave e corria para matá-la com espingarda porque era só o que tinha para comer. Há mais de 36 anos me dedico como voluntário área de saúde, primeiro na Cruz Vermelha Internacional e depois na administração da Beneficência Portuguesa. Não costumo falar muito disso, mas como você está perguntando, acho que sensibilidade social é uma coisa que todo homem tem que ter. Eu só peço a Deus todos os dias que me ensine o caminho do bem. Mas nem todo mundo pensa assim. Acho que foi por isso que desisti da política. O Brasil tem que ser colocado em primeiro lugar; não os partidos políticos.

R. M. - Estudou técnicas teatro?
A.E. - Não. Fui pelo que já conhecia, só de assistir, e o Juca de Oliveira [protagonista da peça] me deu alguns livros sobre o assunto. No mais, fui aprendendo muito no convívio com os atores.

R.M. - Chegou a mudar o texto?
A.E. - Sim, o Brasil é muito dinâmico e eu queria que a peça estivesse sempre atualizada.

R.M. - E interferiu no espetáculo?
A.E. - Claro, assisti as apresentações durante quase um ano, e se não gostava de algo, chamava o diretor Marcos Caruso e pedia mudanças.

R.M. - O senhor é conhecido por não se importar muito em se vestir bem, andar na moda. Isso mudou quando passou a conviver com artistas? Eles, s vezes, são tidos como vítimas da moda…
A.E. - [Risos] Não tem isso, não. Eu nunca tive preocupação com a embalagem. Só me preocupo em andar limpo. Nunca comprei um terno fora do Brasil e vou morrer assim.

R.M. - Também não se preocupou com o figurino do espetáculo?
A.E. - Aí, sim! Não quero ninguém mal-vestido em minha peça! [risos]

R.M. - Como tem sido a reação do público?
A.E. - O público em São Paulo foi formidável. Em oito meses, tivemos mais de cinqüenta e dois mil espectadores. Foram mais de cento e trinta apresentações e em todas elas as pessoas aplaudiam de pé, o que me emocionou muito. Mas acho que isso também se deve inteligência do autor de fazer a peça em um só ato. Então, quem não gostava, não tinha a chance de ir embora. [risos]

R.M. - E a crítica?
A.E. - De uma maneira geral, foi muito condescendente. A não ser algumas críticas mais pesadas, como a da revista “Veja” que disse que a peça “não valia um saco de cimento”. [risos]

*

Passados sete anos, gostaria muito de saber se Antônio Ermírio de Moraes reavaliou duas de suas posições: abandonar a política e encerrar sua carreira no teatro.

Tomara que sim. No primeiro caso, porque temos carência cada vez maior de pessoas lúcidas e confiáveis nessa área. Quanto dramaturgia, independentemente da qualidade de seu texto, só pela iniciativa já merece o maior dos prêmios: nosso reconhecimento. Empresários geralmente participam da cultura como investidores - atraídos pelos incentivos fiscais, naturalmente -, o que já é um alento. Mas é ainda melhor quando se permitem observar e entender o humano de perto, tanto quanto fazem em relação ao dinheiro. E nada mais indicado para isso do que a arte.

A propósito, lembrei-me do dramaturgo Bernard Shaw e daquele seu panfleto impagável, cujo nome já diz tudo, “Socialismo para milionários”. Lá pelas tantas, ele escreve: “…não há mão que se estenda ao milionário, a não ser para pedir. Em todas as relações que possamos ter com ele está implícito o erro de que ele não tem nenhum motivo de queixa e deveria sentir vergonha por nadar em dinheiro enquanto outros estão morrendo de fome”.

É por isso que a gente tem mais é que dizer: bravo, Antônio Ermírio!


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