As Três Bruxas e Eu


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Ainda não me dediquei a desenvolver a tal mediunidade que, segundo minhas cartomantes prediletas, tenho de sobra. Mas se tem uma sensação qual dou especial atenção é aquela de achar certas pessoas e situações familiares, talvez até mesmo de uma vida passada.

Foto: S.R./Medinaonline
As Três Bruxas 1Aconteceu recentemente, pela enésima vez. Foi na Academia Brasileira de Letras, onde vi FERNANDA MONTENEGRO, NÉLIDA PIÑON e LYGIA FAGUNDES TELLES juntas e ainda mais iluminadas, coisas da imortalidade, em pleno verão carioca. Fiquei em estado de choque. Afinal, não é todo dia que a gente presencia uma tão extraordinária aparição de deusas, de mãos dadas, saltitantes, como num culto ao sagrado supremo, a arte. Quanta magia concentrada em um só tempo e espaço! O que falavam? Por certo, algo totalmente indecifrável para nós, simples mortais que as veneramos.

Enquanto me dirigia a elas para o devido beija-mão, um turbilhão de imagens tomou-me de assalto. Incrível: já tinha presenciado aquela cena e, acredite, até participado dela. Mas… quando? Dize-me, ó tu, poder desconhecido… (pois é, nessas horas de aflição, costumo invocar o espírito-maior, Shakespeare).

Shakespeare?!? Peraí… É isso, escritores me mordam! Eu fui MACBETH e elas… as TRÊS BRUXAS!

Foto: Reprodução

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Nesse exato momento, como sói acontecer aos iniciados, entrei em transe. Convenhamos, receber um Mac de frente é uma experiência única, ainda mais para alguém altamente influenciável por histórias de intriga, ambição, traição, disputas pelo poder - meu lado negro, confesso. Petrificado, só conseguia sentir a memória trabalhando para recobrar cada momento dessa inesquecível experiência, que aqui relato para conhecimento das futuras gerações.

*

Tudo teve início naquela planície, onde as três Bruxas se reuniram para tramar o misto de vitória e tragédia que se abateria sobre mim:
1 BRUXA - Quando novamente as três nos juntamos no meio dos raios e trovões que amamos?
2 BRUXA - Quando terminada esta barulhada, depois da batalha perdida e ganhada.
3 BRUXA - Antes de cair a noite.
1 BRUXA - Em que lugar?
2 BRUXA - Na charneca.
3 BRUXA - Ali vamos encontrar com Macbeth.
1 BRUXA - Irmãs, o gato nos chama!
2 BRUXA - O sapo reclama!
3 BRUXA - Já vamos! Já vamos!
Todas - O Bem, o Mal - é tudo igual. Depressa, na névoa, no ar sujo sumamos!

Mais tarde, na charneca, tendo meu fiel amigo Banquo como testemunha, deparei-me com elas preparando a maldade, dançando e cantando:
- Bruxas da terra e do mar, toca, toca a cirandar, e roda que rodopia! Três voltas para a direita, três voltas para a esquerda, e está feita a preceito a bruxaria.
Perguntei-lhes:
- Quem sois vós três? Caso o possais, falai-me.
A resposta causou-me sobressalto:
1 Bruxa - Salve Macbeth! Salve, Tane de Glamis!
2 Bruxa - Salve, Macbeth, Salve, Tane de Cawdor!
3 Bruxa - Salve Macbeth! Salve, que rei sereis um dia!

A profecia se concretizou, com aquele magistral banho de sangue que todo mundo conhece. Atormentado pela culpa, fui encontrá-las em volta de um caldeirão, numa caverna, preparando feitiço pra me castigar, a mando de Hécate, a divindade da noite, que a elas dizia:
- Bravo! Mestras que sois no ofício, partilhareis do benefício. E agora, como elfos e fadas em roda cantai, de mãos dadas ao redor da mixórdia ardente, embruxando cada ingrediente.
Logo ao entrar, perguntei:
- Eh, horrendas bruxas, filhas do demônio, que estais fazendo?
Responderam-me, as três:
- Obra que não tem nome.

*

Nesse exato momento, trovões e raios resgataram-me do pesadelo. Minha cabeça ainda girava com tamanha alucinação. As três Bruxas logo ali frente, dançando de mãos dadas, a zombar de mim…

Corri em direção a elas, mas, qual o quê! Assim como chegaram, Fernanda, Nélida e Lygia desapareceram em meio névoa da noite.

Quando nos encontrarmos novamente, vou lembrar a elas que fui Macbeth!

Ao menos na mágica eternidade de um flash.


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